Edição 327Abril 2022
Quinta, 26 De Maio De 2022
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Publicado em 16/03/2022 - 7:01 am em | 0 comentários

Divulgação

Arquitetura hostil pode ser prejudicial para a sociedade

Afastar ocupações indesejáveis

Arquitetura hostil pode ser prejudicial para a sociedade

A arquitetura hostil é um conjunto de estratégias projetuais ligadas ao desenho urbano para prevenir ou impedir a criminalidade e manter a ordem. Em geral, esse conceito é utilizado para evitar a prática de skate, parkour, micção pública, abrigo para pessoas em situação de rua, entre outros comportamentos. E possui uma espécie de urbanismo higienista, segundo Rui Rocha Júnior, professor de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário de João Pessoa – Unipê, na Paraíba. O objetivo é afastar as ocupações indesejáveis nos grandes centros urbanos, praças, viadutos, marquises e calçadas.

Rui diz que essas estratégias regulamentam o espaço público e afastam das grandes cidades as pessoas mais desprovidas de dinheiro, o que é um grande perigo, já que a cidade em si é para todos: “As áreas aparentemente mais estruturadas pertencem aos que têm o maior poder econômico e consequentemente social, portanto a arquitetura hostil dialoga indiretamente com a população mais pobre, alertando-a que, apesar de ser um espaço público, não é um lugar para ela, passando a ser uma arquitetura da exclusão. A cidade é de todos e para todos, mas a aplicação desses planos cria muros invisíveis na sociedade”.

Fato que representa bastante as exclusões geradas pela arquitetura hostil, segundo o professor, foram as pedras instaladas sob os viadutos Dom Luciano Mendes de Almeida e Antônio de Paiva Monteiro, localizados na Avenida Salim Farah Maluf, em São Paulo. Elas afastavam as pessoas em situação de rua do local. Outro exemplo aconteceu em 2015, na capital baiana, onde plantaram cactos de baixo dos viadutos, para afastar as pessoas em situação de rua.

“Existem diversos projetos de revitalização urbana que disponibilizam bancos de praças com braços dividindo o espaço, ou com acentos inclinados, para que não os usem para dormir”, ressalta. “As estratégias trazidas pela arquitetura hostil funcionam como uma violência à democracia do espaço urbano. Não resolvem o problema de segurança, mas camuflam a pobreza. Uma das formas de trazer segurança aos espaços públicos é a vitalidade urbana, que é a presença humana”, assinala Rui, que ainda diz que os conflitos sociais graves nas cidades podem muitas vezes estar mais relacionados com políticas sociais mais profundas e complexas, ao invés do espaço construído.

Para o docente, a sociedade necessita de uma arquitetura amistosa ao invés de uma arquitetura hostil nas cidades. Para pessoas em situação de rua, a solução é mais profunda, dependendo também de políticas públicas de abrigo e habitação social, educação, melhores condições de empregos, entre outras ações. Vale ressaltar que os espaços citados são espaços utilizados por pedestres, crianças, idosos e pessoas com dificuldades de locomoção.

“Marquises e viadutos servem como forma de abrigo contra as tempestades para pedestres, motociclistas e ciclistas que não possuem proteção, portanto não podem ser descartados como meio de proteção desse público. Quanto aos skatistas e praticantes do parkour, penso que a cidade deve ser aprazível, lúdica e vivenciada por todos e não apenas por um grupo especifico”, sinaliza.

Rui lembra que a arquitetura e o desenho urbano não são as únicas soluções aos problemas sociais, mas ajudam a resolvê-los tanto quanto a agravá-los: “É preciso mudar a forma como encaramos a cidade, pensar mais no coletivo e em soluções para todos”.

O especialista salienta que o conceito pode afastar diversos conflitos sociais nunca antes mediados: “No caso da arquitetura hostil, agrava-se a má qualidade das nossas cidades, e a hostilidade é a ausência de respostas aos problemas sociais que a cidade nos apresenta. Ela tenta ‘varrer para baixo do tapete’ as questões sociais que ainda estamos longe de resolver”.

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