Edição 310Novembro 2020
Sexta, 04 De Dezembro De 2020
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Publicado na Edição 244 Maio 2015

Questão de fé

Luiz Carlos Ferraz

Por mais fé que um indivíduo possa ter, é forçoso admitir que há questões nas quais a fé, ainda que em abundância, não é suficiente. Pode ser sim bálsamo a aquietar a alma, resignar o coração, tranquilizar o cidadão que a elege – o que em todos os casos não é pouco… –, mas resolver um problema social de forma definitiva, absoluta, como, por exemplo, impor fim à injustiça, não!; recorrer à fé apenas não parece ser razoável. Não se trata de questionar o poder supremo da fé, aquela que “move montanhas” e que é celebrada em escritos sagrados, muito menos de ofender, menosprezar ou blasfemar contra os que pregam a necessidade de tê-la, por afinal se reconhecer o trabalho despojado que homens e mulheres realizam, seja na codificação dos mistérios da criação divina, com a promessa de um porvir aventurado, seja na disseminação de pensamentos virtuosos. Infelizmente, a fé não é, pelo menos não parece ser, satisfatória, por exemplo, para saciar a fome dos miseráveis, aniquilar a criminalidade, cessar as guerras, proteger o meio ambiente, garantir mais educação e saúde ao povo, muito menos extirpar a corrupção. No caso deste vício que assola nosso país, para o qual a sociedade clama pela aplicação da lei, cominando severa pena para o agente, seja ativo ou passivo, a fé poderia ter o condão de desestimular a reincidência – o que quase nunca acontece. Afinal, no âmbito dessa corrupção endêmica, que atinge praticamente toda a sociedade, mas de forma peculiar as esferas de governo, a realidade aponta que também não adianta ter fé no funcionamento vigilante do Judiciário, pois de per si, ainda que fervorosa, ela não garantirá que a pena seja justa e exemplar e o criminoso a cumpra. Quando se estabelece o processo, o que já é caso de comemoração, via de regra a punição não alcança o ladrão do dinheiro público; e quando isso acontece, não há fé que o mantenha encarcerado. Quando muito o infrator será mantido em cela especial, com todas as mordomias, ou cumprirá a pena em casa, ainda que lhe tenha sido imposta a utilização de tornozeleira eletrônica – o que, a bem da verdade, sempre causará dúvidas sobre o uso efetivo. Ora, enfim, se a fé não se aplica a esta e outras muitas situações, o que afinal tem que ser feito para resolver de vez os desatinos da humanidade?

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