Edição 317Junho 2020
Segunda, 21 De Junho De 2021
Editorias

Publicado na Edição 314 Março 2021

Pandemia de todo dia

Luiz Carlos Ferraz

Passado um ano e trololó da nova peste que assola o país e o mundo, o cidadão brasileiro não só continua se recusando a respeitar as exigências sanitárias (como evitar aglomeração de pessoas e usar máscara) – o que acelera os índices de contaminação e mortes –, como também se aproveita da situação para aplicar a máxima gerseniana e levar alguma vantagem. Quando a referência é feita a brasileiro, deve-se colocar no mesmo saco o elemento nacional pessoa física, assim como a pessoa jurídica ou qualquer outra ficção fabricada no país. Todos buscam, em meio ao caos, se dar bem e pouco ou nada importa se sua vítima é um trabalhador, eleitor, ou simples consumidor – como aquele sensibilizado pela publicidade das gigantes de telefonia, que aproveitou a promoção e adquiriu o pacote de 200 megas de velocidade em sua internet, mas hoje constata, na prática, o ritmo paquidérmico do serviço. Se conseguir registrar sua queixa – pois, com a desculpa da pandemia, o SAC de todo e qualquer prestador de serviços está funcionando de forma precária –, ouvirá desculpas, de que o seu equipamento é antiquado e, como é sabido, o tráfego está intenso porque as pessoas estão trabalhando em home office, o estudante assiste aula virtual, a celebridade promove uma live… Enfim, estamos em pandemia. A verdade não dita é que o serviço prometido e contratado está aquém da capacidade que a empresa pode oferecer. Novos investimentos, nem pensar! E o Procon? Ora, o órgão estadual e seus parceiros nos municípios estão atolados com reclamações e denúncias represadas e que não param de crescer. Estamos em pandemia. Tanto que a pizzaria preferida entrega a tradicional redonda completamente desfigurada, sem este ou aquele ingrediente, e diante do protesto pede desculpas e alega que estamos em pandemia. Também a educação online, que serve para escancarar as desigualdades sociais, não funciona neste ambiente de colapso sanitário e hospitalar. Estes talvez sejam exemplos singelos demais quando se compara à situação de quem é contagiado pela Covid-19 e não encontra vaga para internação, seja em ambulatório ou em UTI. Exemplos singelos, mas dramaticamente emblemáticos neste Brasil que vivemos e lutamos para sobreviver, apesar do negacionismo explícito de quem deveria dar o exemplo.

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