Edição 327Abril 2022
Terça, 17 De Maio De 2022
Editorias

Publicado na Edição 327 Abril 2022

Irmãos invisíveis

Luiz Carlos Ferraz

Santos, cujo brasão ostenta o lema, em latim, Patriam Charitatem et Libertatem Docui, ou À pátria ensinei a caridade e a liberdade, há de enfrentar com tais princípios a questão da população de rua, que a cada dia se amplia pelos cantos da cidade. Para uns, efetivamente, essas pobres pessoas são alvo dos ideais santistas, ainda que de forma discreta e insuficiente. Afinal, respeitam sua liberdade de ir e vir para qualquer ponto do município, ao mesmo tempo em que ajudam com o olhar, que vem acompanhado de dinheiro, roupas, comida etc. Para outros tantos, são invisíveis, absolutamente ignorados – “estes que se acertem com Ele”, alguém tentará ensinar. Contudo, para um reduzido grupo, a presença dos maltrapilhos parece insuportável, a ponto de se perder o decoro quando se trata de discutir um atendimento melhor, uma atenção especial, enfim, um acolhimento mais humano a essa gente. O debate chegou a um tom dramático na Semana Santa, diante da ação noturna ocorrida na orla da praia, quando agentes da Guarda Civil Municipal (GCM) confiscaram alimentos feitos por moradores de rua no momento em que iam comer. A abordagem foi executada sem gentilezas e até a ração do pet foi levada pela GCM. Outras ameaças ocorreram em meio ao terror, mas, felizmente, não foram cumpridas. Ouvidos sobre esta convivência, vários moradores de rua relataram casos de intimidação e violência física. Ao saber do que acontece neste triste universo, o santista não pode deixar de se indignar. É uma batalha diária, muitas vezes travada de forma covarde, na calada da noite. Trata-se de uma espécie de “higienismo social” que afasta, penaliza os desafortunados e que, efetivamente, não resolve. Tirar a miséria das nossas vistas e encarcerá-la em algum espaço oculto não resolve; tampouco a ação de policiais municipais tomando-lhes o alimento das mãos. Enquanto isso, permanecem vazios alguns edifícios públicos da orla da praia e que durante o dia servem parcialmente de postos de salvamento. Melhor seria que no período noturno fossem usados para oferecer caridade e uma noite de paz, porque miséria não se combate com a força do cassetete.

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