Edição 310Novembro 2020
Domingo, 29 De Novembro De 2020
Editorias

Publicado na Edição 250 Novembro 2015

Assombrações

Luiz Carlos Ferraz

Preferia não falar da vergonha que, como brasileiro, sinto do meu país em face aos acontecimentos dos últimos meses, das últimas semanas, enfim, dos últimos dias, mas isso não é possível, pois a cada dia é um novo escândalo, ou desdobramento de um antigo, que surge para me atormentar e, naturalmente, aborrecer muitos – sim, somos muitos que ainda buscam o bem e repudiam a canalhice de alguns – sim, eles são apenas alguns, mas que, ocupando cargos estratégicos nos poderes da República (sim, nos três poderes da República!) e mancomunados com um bando de empresários safados, escolheram o caminho do crime para gerar a fortuna que alimenta o fantástico esquema de corrupção que, afinal, dita os rumos do país. O mais dramático nem é tanto este sentimento de otário que a maioria, como eu, sente no seu dia a dia, mas simplesmente porque tudo acontece à custa da miséria do povo, do trabalhador brasileiro que sobrevive na vala da marginalidade, sem vislumbrar qualquer possibilidade de ter uma vida digna, abandonado na fila da saúde, sem educação, sem segurança pública, sem cultura, enfim, sem o mínimo respeito às suas necessidades básicas. O cenário é terrível no âmbito federal, com esses criminosos de colarinho branco agindo livremente em Brasília e em todo canto por onde se esparramam suas representações e escritórios regionais, e também causa nojo a diuturna roubalheira em governos de estados e municípios. Sem ter como se salvar, não há como não ver relação entre as quadrilhas encasteladas no poder, que assaltam o erário descaradamente, como nos escândalos do Mensalão e do Petrolão – que a cada dia emerge na mídia com mais uma prisão, a mais recente de um senador em pleno mandato! –, com as quadrilhas que, agindo à margem da lei e, vá lá, se aproveitando da omissão irresponsável dessas autoridades palacianas, fomentam tragédias, como a patrocinada pela Samarco Mineração S.A. na região de Mariana, em Minas Gerais – que a cada dia assombra com mais um corpo encontrado na lama que dizimou o rio Doce…

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