Edição 271Agosto 2017
Quinta, 21 De Setembro De 2017
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Publicado na Edição 260 Setembro 2016

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Iphan amplia patrimônio cultural

Romaria de Carros de Boi da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade, em Goiás: ano após ano, a tradição da vida rural e da devoção ao catolicismo

Iphan amplia patrimônio cultural

A Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade, em Goiás, e a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, foram declaradas Patrimônio Cultural Brasileiro pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. As indicações foram aprovadas por unanimidade, em 15 de setembro, durante reunião no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF).

O Conselho Consultivo é órgão colegiado do Iphan para as questões relativas ao patrimônio material e imaterial, que avalia os processos de tombamento e registro pleiteados. É formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, arquitetura e arqueologia, totalizando 22 conselheiros de vários segmentos. A avaliação do registro da Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade como patrimônio imaterial contou com a presença do ministro da Cultura, Marcelo Calero, que destacou a importância de preservar trajetória do Iphan ao longo de seus 80 anos. A presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou a atuação da instituição na defesa da cultura: “O Iphan é, hoje, um patrimônio da Nação. O Conselho sempre foi, desde a criação do Instituto, sua principal instância. Só senta nesta cadeira quem entende que a dimensão humana só pode ser exercitada através da cultura”.

No parecer sobre a inscrição da Casa da Flor no Livro do Tombo de Belas Artes, o relator e conselheiro Leonardo Castriota comparou o local a outras obras internacionais reconhecidas como patrimônio cultural, como a Watts Towers, em Los Angeles, nos Estados Unidos, e o Palais Idéal du Facteur Cheval, em Hauterives, na França.

Tradição reiterada pela fé

A devoção ao Divino Pai Eterno, em Trindade, começou por volta de 1840, quando um casal encontrou um medalhão entalhado com a imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Desde então, muitas pessoas peregrinam até a região, caracterizando esta prática como imersa no catolicismo popular.

Os carros de bois eram o principal meio de transporte para as famílias das zonas rurais, para viagens de longas distâncias. Por isso, a Romaria de Carros de Bois da Festa de Trindade está relacionada às antigas práticas cotidianas da vida rural. Ainda hoje, permanece como uma tradição cultural, reiterada no convívio familiar por sua representatividade no que se refere às antigas vivências de homens e mulheres do campo.

O epicentro da romaria é em Trindade, mas os devotos saem de diversas cidades de Goiás e de estados próximos, do Centro-Oeste e também do Sudeste. A preparação envolve diversas atividades, como reparos eventuais nos carros de bois, de mantimentos que serão consumidos, ofertados ou vendidos durante o trajeto, entre outros.

Os carreiros, candeeiros e demais participantes da Romaria de Carro de Bois se colocam na posição de herdeiros, guardiões e transmissores de costumes da vida rural, que vem sofrendo, nas últimas décadas, profundas mudanças com o advento da modernização que avança na região. Ao usarem um meio de transporte tido por anacrônico na atualidade, rememoram os tempos dos seus antepassados e até mesmo o da infância e reconstroem, ano após ano, a tradição da vida rural e das devoções.

Esforço de ordenar a desordem

Quando a construção de sua casa já estava em andamento, por volta do ano de 1923, o sr. Gabriel inspirado por um sonho começou a embelezar a casa com mosaicos, esculturas e enfeites diversos coletados no lixo e a partir de objetos quebrados. Segundo ele, eram “coisinhas de nada”, eram búzios, conchas e outros depósitos da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis que transformaram a construção.

Quem chega à Casa da Flor passa por uma pequena escadaria guarnecida de pedras e ladeada de flores confeccionadas por cacos de louças e telhas. Nenhum arranjo é igual ao outro. Um corredor externo delimitado por um muro igualmente feito de coisas quebradas determina um primeiro espaço de convivência, ao ar livre, onde há um banco com motivos abstratos e figurativos, como flores, folhas, cachos de uva, carrancas. Internamente, a casa em formato de “T”, guarda outras surpresas, já que até mesmo o observador mais atento não consegue perceber todos os elementos que compõem os seus três ambientes.

Após a morte do seu proprietário, a casa foi recuperada com recursos públicos e hoje é mantida por meio de projetos culturais. A casa possui um tutor, o sobrinho do Gabriel, que cuida da conservação da propriedade e da recepção aos visitantes.

De acordo com o parecer do Iphan, entre as justificativas para o tombamento da Casa da Flor está o ineditismo criativo, que instiga ao debate sobre os processos de produção cultural. O documento destaca que “a Casa da Flor condensa esse esforço de ordenar a desordem, a fragmentação e as oposições, de acordo com um conhecimento do valor das coisas e não da sua utilidade meramente funcional”.

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Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro: mosaicos, esculturas e enfeites diversos coletados no lixo e a partir de objetos quebrados