Edição 352Maio 2024
Quinta, 13 De Junho De 2024
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Publicado em 7/07/2022 - 6:54 am em | 0 comentários

Acácio Nascimento/Rádio República do Bixiga

Movimento pró-Quilombo do Saracura faz visita técnica às obras da estação

Vestígios arqueológicos do antigo Quilombo do Saracura

Movimento pró-Quilombo do Saracura faz visita técnica às obras da estação

Integrantes do Mobiliza Saracura Vai-Vai realizaram na terça-feira uma visita técnica às obras da futura estação do metrô no bairro do Bixiga, em São Paulo. Representado pelos arqueólogos Marília Calazans e Rossano Bastos, que fazem parte do movimento, o grupo foi verificar o local onde foram identificados vestígios arqueológicos do antigo Quilombo do Saracura pela empresa de arqueologia contratada pela concessionária por exigência da legislação.

Após ato realizado no sábado passado, em prol da memória do Quilombo do Saracura, o movimento pretende realizar diversas ações de sensibilização e conscientização sobre a importância do sítio arqueológico, tais como uma aula pública no bairro, uma audiência na Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil da OAB e outra audiência em agosto na Câmara Municipal. Um parecer prévio à visita, construído por pesquisadores do grupo sobre a preservação do sítio, também foi divulgado neste fim de semana. Agora os arqueólogos farão um novo parecer após a verificação das obras in loco.

“O patrimônio é um território de disputas, onde se mostram as memórias que se querem lembradas”, lembrou o arqueólogo Rossano Bastos. “Essa visita foi uma conquista importante na direção de criar esse espaço de diálogo para garantir as reivindicações do movimento”, disse Marília Calazans, historiadora e doutoranda em arqueologia.

O protesto do sábado pediu a preservação da memória negra do bairro por meio da salvaguarda do sítio arqueológico encontrado nas obras, bem como da mudança do nome da estação para Saracura/Vai-Vai, formas de lembrar o Quilombo do Saracura e a escola de samba Vai-Vai, comunidades que durante os séculos XIX e XX construíram esse espaço. Estiveram presentes o bloco Ilú Obá de Min, moradores, autoridades religiosas, sambistas, ativistas do movimento negro e do direito à cidade, políticos, pesquisadores.

“Esse movimento começou de forma potente para denunciar a violência racial contra a memória e a presença da população negra no bairro. Em São Paulo, o tempo todo fizeram mudanças, obras, em cima das nossas escolas de samba, dos nossos territórios. Queremos avanços no transporte – quem usa ônibus, metrô, é o povo negro –, mas não avanços que impossibilitam que nossa memória seja atuante e resistente”, disse a jornalista Simone Nascimento, que integra a coordenação do Movimento Negro Unificado (MNU).

Uma crônica de 1907 do jornal Correio Paulistano descrevia assim a região do vale do rio Saracura: “É um pedaço da África. As relíquias da pobre raça, impellida pela civilização cosmopolita que invadiu a cidade depois de 88, foi dar alli naquelas furnas. Uma linha de casebres borda as margens do riacho”. Passados 115 anos, a escavação para a construção do metrô encontrou ali um sítio arqueológico classificado como de alta relevância pela equipe técnica (página 43 do projeto encaminhado ao Iphan). A área em que os vestígios foram achados é apontada há décadas como o Quilombo do Saracura. Nesta região nasceu, em 1930, o Cordão Vae-Vae, continuidade dessa resistência negra. Em 2021, a quadra da escola foi deslocada para novo endereço no bairro em virtude das obras do metrô.

Da compreensão do valor desses achados para o direito à memória, à terra e à presença da população negra no bairro e na cidade, o Mobiliza Saracura Vai-Vai vem atuando pela paralisação da obra até que seja definido um projeto de preservação; por um projeto de educação patrimonial e um memorial no local; pela mudança do nome da estação de 14 Bis para Saracura/Vai-Vai; e pela permanência da população negra na região. O grupo lançou um manifesto que já conta com o apoio de mais de 130 instituições, tais como MNU, Uneafro, Casa Sueli Carneiro, Sindicato dos Metroviários de São Paulo e LabCidade FAU-USP, e uma petição que já soma quase duas mil assinaturas.

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