Edição 292Maio 2019
Quinta, 27 De Junho De 2019
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Publicado em 29/03/2019 - 8:04 am em | 0 comentários

Raimundo Rosa/Secom-PMS

Restauração do bonde japonês revela materiais e técnicas de construção

Bonde japonês deve começar a circular no segundo semestre

Restauração do bonde japonês revela materiais e técnicas de construção

A equipe especializada da Companhia de Engenharia de Trânsito (CET-Santos) enfrenta o desafio de restaurar o bonde japonês modelo dos anos 50, um presente oferecido a Santos pela cidade de Nagasaki. Já no desmonte das portas do elétrico, apareceu uma surpresa na forma de um pequenino prego. “Não de ferro ou aço, de uso comum no Brasil, mas de latão, material nobre”, conta o engenheiro Marcos Rogério Nascimento, gerente de Manutenção e Serviços da CET, coordenador da equipe que há quase 20 anos restaura os bondes da linha turística em circulação pelo Centro Histórico e os do acervo do Museu Vivo Internacional de Bondes.

As peças de fixação de material nobre foram utilizadas nas janelas e portas, feitas em madeiras sem o mesmo padrão de qualidade, comentou Nascimento: “A solução adotada buscou garantir maior durabilidade ao bonde. O prego de latão não oxida, por consequência não gera fungos que levam ao apodrecimento da madeira”.

O processo de restauro vai além dos serviços manuais feitos por profissionais de marcenaria, carpintaria, elétrica e mecânica, nas oficinas da CET, na Vila Mathias, e na garagem do Valongo. Ele inclui pesquisa histórica sobre o local de origem do veículo, a técnicas de engenharia e construção, a cultura, tradições e costumes.

Com os estudos, surgem as descobertas. No caso do bonde japonês, a análise do sistema construtivo das portas revelou que as partes encaixadas são afixadas sem parafuso. No lugar é usado tipo de cunha também de madeira – peça em forma de ângulo agudo que serve de ajuste para o encaixe das partes.

“Ao restaurar estudamos a forma de montagem”, explica Nascimento: “O bonde foi construído com as técnicas empregadas na época, mas também houve o uso da cunha, que é uma técnica rudimentar, milenar. A intenção certamente também foi a maior durabilidade e a preservação da madeira, garantindo um veículo mais resistente e seguro”.

Reproduzir as portas, com todas as suas complexidades, é uma parte do desafio para colocar em circulação do bonde japonês. Essa etapa, que vai incluir a pintura externa, deverá ser concluída até o final de abril.

São várias as frentes trabalhando simultaneamente. Na garagem do Valongo, onde está o truck, uma parte da equipe se encarrega da substituição do sistema de captação da corrente elétrica, para que o modelo japonês possa utilizar a rede local – a mesma dos trólebus e que também serve a linha turística do Centro. O grupo de profissionais cuida, ainda, dos reparos na chaparia (laterais).

Outra frente, esta terceirizada via licitação, prepara a redução da bitola para adaptá-la aos trilhos existentes na cidade e na substituição dos quatro eixos do veículo, para preservação das rodas originais.

O bonde japonês deve começar a circular no segundo semestre. Nas próximas semanas, serão iniciados os testes de mecânica e elétrica, na garagem do Valongo.

Na sequência, está programada a montagem do truck na carroçaria, com as portas e janelas, e início dos testes dinâmicos (com movimentação no local).

Paralelamente, também é preparada a comunicação visual para reproduzir no seu interior o ambiente de quando rodava pelas ruas da cidade japonesa.

A doação do bonde japonês foi formalizada em 2014, após quatro anos de tratativas entre as prefeituras de Santos e de Nagasaki. O desembarque em solo santista ocorreu dois anos mais tarde, após 42 dias de viagem e uma complexa operação, custeada com a ajuda de vários parceiros.

Em 2 de fevereiro de 2016, ainda como parte das festividades pelos 470 anos de Santos, foi oficialmente entregue. A solenidade na Estação do Valongo reuniu autoridades locais, das associações Japonesas de Santos e Nagasaki Kenjin do Brasil e do Consulado Geral do Japão em São Paulo.

O elétrico de origem nipônica transformou-se em mais um veículo do Museu Vivo Internacional de Bondes.