Edição 298Novembro 2019
Quinta, 12 De Dezembro De 2019
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Publicado em 14/08/2018 - 8:47 am em | 0 comentários

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Jovens preferem outra vaga de estágio em vez de vaga formal

Adquirir experiência na área é o principal motivador

Jovens preferem outra vaga de estágio em vez de vaga formal

Diante de um cenário econômico desfavorável, o trabalho entre os jovens amarga os piores efeitos da recessão. A redução de postos nesta faixa atingiu no fim de 2017, no Brasil, a maior taxa em 27 anos. Segundo o estudo “Tendências Globais de Emprego para a Juventude 2017”, realizado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa brasileira supera o dobro da média mundial, de 13,1%. Entre mais de 190 países avaliados, apenas 36 têm uma situação pior para os jovens.

Além dos cortes, eles ainda enfrentam um velho dilema: para entrar no mundo corporativo é preciso experiência prévia. Por isso, aqueles que ainda frequentam as salas de aulas recorrem a outras alternativas, como o estágio. Segundo uma pesquisa especializada, a modalidade está tão atraente para os estudantes que vem ganhando o posto de primeira opção como porta de entrada no mercado de trabalho. Além de fato de não exigir experiência, esses programas proporcionam a vivência profissional que os jovens necessitam para o desenvolvimento da carreira.

Levantamento feito pela Companhia de Estágios – consultoria e assessoria especializada em programas de estágio e trainee – apurou que quase 60% dos jovens estão em busca de uma oportunidade de estágio e apenas 4% procuram uma vaga CLT. Entre aqueles que já atuam no programa, o cenário não é muito diferente: 39% almejam uma efetivação, enquanto 37% desejam ingressar em outro estágio. Somente 24% têm como prioridade encontrar uma colocação formal.

Mais de 90% dos jovens que esperam a efetivação estão satisfeitos com a vaga de estágio atual e desejam permanecer na empresa. Já entre os que querem partir para o mercado celetista, esse índice cai para 64%. Dentre os estagiários que pretendem procurar outra vaga no programa após a conclusão do contrato atual, o nível de satisfação com a vaga é equilibrado. De acordo com Tiago Mavichian, diretor da recrutadora, isso pode acontecer por várias razões: “Pode ocorrer um descontentamento com a empresa na qual está atuando, ou o desejo de aprender mais sobre a profissão, visto que os contratos de estágio são relativamente curtos e, nem sempre, o estudante consegue aprender tanto quanto gostaria, ou, até mesmo, o intuito de conhecer outros campos de atuação”.

Trinta e cinco por cento dos estagiários que esperam ser efetivados alegam que a maior preocupação, no momento, é conseguir ser promovido no trabalho e impulsionar a carreira. A remuneração oferecida pelos empregadores também pode contribuir para tal decisão: 58% desses jovens recebem bolsa auxílio acima de R$ 1.200. Já para os estudantes que, embora satisfeitos com o estágio, querem procurar outra oportunidade, a prioridade é adquirir mais experiência antes de se candidatarem ao mercado formal. Esta é a maior preocupação para 34%.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou sinais de uma lenta recuperação: entre janeiro e junho deste ano o país voltou a criar empregos e apresentou um saldo de 392.461 novos postos. Mas a melhora passa longe do esperado, especialmente diante da grande procura. No último dia 16 de julho, por exemplo, cerca de 6.000 pessoas compareceram a um mutirão realizado no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que oferecia vagas com salário médio de R$ 1.200, valor, muitas vezes, menos atrativo quando comparado a outras modalidades, como a autônoma, e até mesmo ao estágio. Além disso, o índice de medo do desemprego, medido desde 1996 pelo Ibope e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), chegou ao seu pico no final do primeiro semestre do ano.

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o aumento do desemprego foi maior entre os jovens do que em outras faixas da população. No primeiro semestre do ano, a taxa chegou a 28,1% na faixa etária de 18 a 24 anos e 43,6% entre 14 a 17 anos. O estudo, que faz parte da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, mostra que, apesar do recuo no número de postos fechados, que caiu de 13,1% para 12,4% no trimestre encerrado em junho, o desemprego ainda atinge, no total, 13 milhões de brasileiros.

Além disso, o levantamento também registrou o maior índice de pessoas fora da força de trabalho (que não trabalham nem procuram) desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. 65,6 milhões de brasileiros integram o grupo, composto por donas de casa, aposentados, jovens, estudantes, e pessoas que deixaram de ter disponibilidade ou que desistiram de procurar um emprego formal. Diante desse cenário negativo, os jovens buscam alternativas para não ficarem à margem do mercado, por isso, o estágio acaba se mostrando uma opção atraente a esse público, que geralmente cursa o ensino médio ou a graduação.

Para Mavichian, essa situação não é exclusividade do Brasil: “Em países que contabilizam o valor das verbas rescisórias pelo tempo de serviço prestado à empresa, é comum que os cortes cheguem primeiro na mão de obra mais jovem, afinal essa demissão é mais barata do que a de um veterano. Isso diminui o ônus patronal. E o mesmo ocorre com as contratações, pois os jovens têm pouca ou nenhuma experiência profissional, e, necessariamente, precisam ser treinados pelas empresas, o que gera custo. Por isso o empregador tende a descartar esse grupo do quadro de colaboradores”.

Já no estágio, o diretor da recrutadora explica que isso não é um impedimento. O programa tem cunho educativo e visa ser o complemento prático de tudo o que é apreendido em sala de aula para proporcionar o desenvolvimento profissional do estudante. Portanto, a experiência prévia é um requisito dispensável, assegurado por lei.

Segundo Mavichian, as empresas que implementam o programa de estágio procuram, justamente, por um jovem em formação: “O principal intuito é treinar o estudante de acordo com a cultura da empresa, para que este se desenvolva profissionalmente e possa integrar o quadro efetivo no final do contrato. Além disso, o estudante oferece um olhar em constante capacitação, que está antenado com as principais tendências do mercado na atualidade e, na maioria das vezes, isso é de grande valia para a organização. Ou seja, é uma via de mão dupla, porque o estudante também adquire bagagem profissional e desenvolve sua carreira”.