Edição 294Julho 2019
Quarta, 21 De Agosto De 2019
Editorias

Publicado em 24/03/2019 - 8:29 am em | 0 comentários

Divulgação

Identificar pontos de poluição das águas e dar assistência aos municípios

Cerca de 80% do lixo marinho tem origem no ambiente terrestre

Identificar pontos de poluição das águas e dar assistência aos municípios

A Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) apresentou os resultados de um projeto de prevenção e combate à poluição marinha. Com sua primeira fase implementada em Santos, a iniciativa tem como objetivo identificar os pontos de poluição das águas e dar assistência aos municípios para o aprimoramento da gestão de resíduos sólidos em terra, como forma de prevenir o lixo no mar.

O projeto é pioneiro ao buscar a identificação das fontes de vazamento de resíduos para combater a poluição marinha, fruto de um acordo de cooperação entre Abrelpe, ISWA, e Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Santos, com o apoio da Agência de Proteção Ambiental da Suécia.

“É a primeira vez que um projeto com essa finalidade é conduzido, e os resultados são fundamentais para poder enfrentar o problema do lixo no mar. Mais do que limpar praias e retirar resíduos do oceano, o plano de ação que será desenvolvido permitirá à cidade de Santos o desenvolvimento de melhores práticas para evitar que os resíduos continuem a poluir o estuário e a orla da praia”, avalia Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe e vice presidente da ISWA.

Os resultados da primeira fase do projeto desenvolvido em Santos indicam que são três as principais fontes de vazamento de lixo no mar: comunidades nas áreas de palafitas; os canais de drenagem que atravessam a malha urbana; e a própria orla da praia em sua faixa de areia.

O levantamento realizado nesse primeiro ano do projeto aponta que em Santos a cada dia cerca de 60 toneladas de resíduos sólidos, dos quais mais de 85% são materiais plásticos, acabam indo parar no mar, trazendo um impacto direto para o meio ambiente, fauna e flora marinhas e para a saúde da população. Dos mais de 80 tipos de resíduos já encontrados nos mares, conforme classificação internacional, o projeto em Santos encontrou cerca de 35 tipos, como madeira, calçados, fraldas, utensílios domésticos, embalagens, brinquedos, dentre outros.

“O total de resíduos com destino no mar equivale à geração total diária de uma cidade com 65 mil habitantes, e mostra a necessidade do desenvolvimento de uma estratégia abrangente e permanente para combater tais fontes de poluição”, comenta Silva Filho.

Para evitar a continuidade da poluição marinha são necessárias ações estruturantes, como adequação da ocupação territorial, melhor infraestrutura de coleta com cobertura dos serviços para toda a comunidade e um processo contínuo de comunicação e engajamento do cidadão. Aliado a isso, como medida de longo prazo, é preciso focar nas falhas sistêmicas que também trazem impactos negativos para o meio ambiente, como o atual modelo de consumo e a grande quantidade de materiais descartáveis produzidos, adequando-o às novas diretrizes mundiais para um processo de economia circular.

A iniciativa internacional foi lançada no fim de 2017, a partir de constatações de que cerca de 80% do lixo marinho tem origem no ambiente terrestre. “As ações de combate ao lixo no mar, que tem um potencial enorme para contribuir ao atendimento de diversos dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU, devem focar na cidades, de onde parte o problema. Caso contrário, a retirada dos resíduos servirá apenas como um paliativo, já que a fonte de contaminação continuará existindo”, observa o dirigente.

O projeto prevê ainda a elaboração de propostas para reduzir a geração de resíduos, sensibilizar os cidadãos, engajar indústria e comércio, e prevenir a chegada do lixo às praias. Para a segunda etapa, a iniciativa será ampliada para outras cidades da Baixada Santista, começando por Bertioga, em parceria com a Cetesb.

No Brasil, cerca de 2 milhões de toneladas de resíduos vão parar nos oceanos todos os anos, segundo levantamento feito pela Abrelpe a partir dos dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2017, que levou em conta as considerações de um estudo da ISWA sobre o tema da poluição marinha. Esse volume equivale cobrir 7 mil campos de futebol ou encher 30 estádios do Maracanã da base até o topo.

A quantidade, no entanto, pode ser ainda maior, já que as 30 milhões de toneladas de lixo que seguem para unidades de destinação inadequada, ou seja, lixões e aterros controlados que ainda existem em todo o país, podem acarretar um acréscimo de 3 milhões de toneladas de lixo marinho a cada ano.

“A existência dos lixões viola princípios básicos de direitos humanos, contribui para a poluição dos recursos hídricos e desperdiça mais de R$ 5,5 bilhões por ano de recursos públicos destinados à recuperação do meio ambiente e ao tratamento de problemas de saúde. Com menos da metade desses recursos, o país poderia fechar todos os seus lixões e modernizar significativamente o sistema atual de gestão de resíduos”, analisa Silva Filho.

Se os milhares de resíduos sólidos provenientes do plástico que chegam aos oceanos pela costa brasileira fossem encaminhados para processos de reciclagem, haveria uma economia de, no mínimo, 3,6 milhões de litros de gasolina, e os recursos naturais da Terra teriam tempo de vida útil maior, contribuindo para o não esgotamento dos ecossistemas, que hoje são consumidos à exaustão e de maneira muito acelerada.