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Publicado em 6/06/2019 - 7:49 am em | 0 comentários

Moacir Tinoco/Divulgação

Calango do Abaeté pede socorro para evitar a sua extinção no planeta

Calango do Abaeté: genuinamente baiano, só encontrado em Salvador e em quatro municípios do litoral Norte

Calango do Abaeté pede socorro para evitar a sua extinção no planeta

Se não for preservado, o Calango do Abaeté (Glaucomastix abaetensis) corre o risco de desaparecer para sempre da natureza. Genuinamente baiano, descoberto na mística lagoa do Abaeté, em Salvador, é uma espécie que está ameaçada de extinção. Com sete cores e cauda verde-azulado brilhante, a espécie foi descrita pela ciência apenas em 2002 e ainda pode ser encontrado em Salvador e no litoral Norte da Bahia, em áreas de restinga. No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado ontem, a espécie pede socorro. Caso seja extinto na capital, restariam apenas em quatro municípios: Camaçari, Mata de São João, Entre Rios e Esplanada.

Para marcar a data e contribuir com a preservação e divulgação da espécie, um evento foi realizado no Parque das Dunas. A exposição foi promovida pela Universidade Católica do Salvador (UCSal), representada pelo Centro de Ecologia e Conservação Animal (Ecoa), e a Universidade Livre das Dunas e Restinga de Salvador (Unidunas), que faz a gestão do parque. O encontro reuniu pesquisadores, estudantes, comunidade, indígenas da tribo Kariri-xocó e contou com a presença do vice-prefeito de Salvador, Bruno Reis.

As atividades promovidas pelo Dia Mundial do Meio Ambiente ressaltaram a importância do cuidado com o meio ambiente e sensibilizaram a comunidade para conhecer e preservar o Calango do Abaeté, que integra as listas de espécies ameaçadas do Instituto de Conservação da Biodiversidade Chico Mendes (ICMBio) e do estado da Bahia, além de figura como espécie-alvo do Plano de Ação Nacional para Conservação da Herpetofauna do Nordeste (PAN do Nordeste). Pesquisadores alertam que, caso medidas urgentes não sejam adotadas, a espécie corre o risco de desaparecer para sempre do planeta.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou recentemente um relatório preocupante: dentro de algumas décadas, cerca de 1 milhão de espécies da fauna e flora correm risco de extinção em todo o mundo. O relatório alerta que a taxa é a maior dos últimos 10 milhões de anos e evidencia a ação devastadora do homem sobre a natureza. Sem medidas eficientes para mitigar esse cenário, a tendência é que haja uma aceleração no processo de extinção das espécies, inclusive do Calango do Abaeté.

Para o pesquisador Moacir Tinoco, PhD em Biologia da Conservação pela University of Kent, em Canterbury (Reino Unido) e coordenador do Programa de Pós-graduação em Planejamento Ambiental da UCSal, é essencial o envolvimento da comunidade: “Os pressupostos da Biologia da Conservação são claros: devemos integrar pesquisa, manejo e monitoramento e educação ambiental em torno de uma espécie ameaçada para promover a sua efetiva preservação enquanto unidade taxonômica. Um projeto de conservação stricto sensu só funcionará se integrar essas três dimensões, caso contrário, não terá sucesso. É exatamente isso que fazemos no projeto Calango do Abaeté, carinhosamente acolhido pelo Parque das Dunas: pesquisa, monitoramento e educação ambiental”. Tinoco também é docente da graduação em Biologia e membro da Comissão Interinstitucional de Educação Ambiental (CIEA).

O doutorando em Ecologia e colaborador do Ecoa, Magno Travassos, explica que o risco de extinção do Glaucomastix abaetensis é real, pois a espécie já não é tão abundante e sofre pela perda do seu habitat: “Estamos desenvolvendo monitoramento e estudos com a espécie para avaliar os seus hábitos, acompanhar a evolução e verificar como está a qualidade das suas populações. A partir dos resultados coletados poderemos prever, por exemplo, o comportamento do Calango do Abaeté diante do cenário da acelerada antropização que vem sofrendo e pensar alternativas para diminuir estes impactos que interferem na saúde da espécie”.

O monitoramento do Calango do Abaeté é realizado no Parque das Dunas há mais de quatro anos, único local em Salvador onde a espécie ainda é encontrada. Com 25 anos de fundação, 6,9 milhões de metros quadrados e uma biodiversidade que impressiona, o parque contribui ativamente para a preservação do meio ambiente. “Antes de ser um monte de areia, o Parque das Dunas é um monte de vida e nos orgulhamos em receber pesquisadores interessados em investigar a nossa biodiversidade. A conservação deste espaço dentro da cidade possui funções importantes, como a retenção de salinidade, calor e chuvas, essenciais para, por exemplo, regular o clima em Salvador”, avalia Jorge Santana, gestor do parque.

Certificado pela Unesco com o título de Posto Avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – título que também foi conferido ao Ecoa/UCSal e mais oito instituições na RMS e Litoral Norte – o Parque das Dunas tem sua vocação direcionada para ações de educação ambiental, pesquisa e sustentabilidade, iniciativas que contribuíram para o reconhecimento internacional. Segundo Santana, o espaço recebe pesquisadores do Brasil e de diversos países e serviu de laboratório para a produção de mais de 250 pesquisas cientificas. Destas, mais de 170 artigos científicos foram publicados em periódicos nacionais e internacionais.

Professora do curso de Educação Física e discente do Mestrado Profissional em Planejamento Ambiental da UCSal, Fernanda Rocha elogiou a iniciativa: “Os cuidados que devemos ter com o meio ambiente ainda estão distantes do ideal, talvez por muitos não enxergarem a questão ambiental de forma integrada. Espaços como o Parque das Dunas, que é um paraíso do ponto de vista ambiental e da conservação, e abriga espécies como o Calango do Abaeté, precisam existir para estimular a percepção ambiental entre as pessoas, ser divulgado e frequentado”.

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