Edição 271Agosto 2017
Quinta, 21 De Setembro De 2017
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Publicado em 4/02/2017 - 7:15 am em | 0 comentários

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Após 60 anos, jiboia rara é redescoberta na Mata Atlântica

Corallus cropanii: popularmente conhecida como jiboia-do-Ribeira ou jiboia-de-Cropan

Após 60 anos, jiboia rara é redescoberta na Mata Atlântica

Pesquisadores do Instituto Butantan e do Museu de Zoologia da USP anunciaram a redescoberta no Vale do Ribeira, em São Paulo, da cobra da espécie Corallus cropanii, conhecida popularmente como jiboia-do-Ribeira ou jiboia-de-Cropan. Ela é considerada uma das mais raras do mundo e após mais de meio século o animal foi encontrado vivo e na natureza.

Esta é a segunda serpente da espécie encontrada viva em seu habitat natural. A primeira vez que a jiboia-do-Ribeira foi encontrada viva na natureza foi em 1953, quando foi descrita pelo herpetólogo do Instituto Butantan Alphonse Richard Hoge, a partir de um macho de cerca de 1 metro de comprimento encontrado na cidade de Miracatu, SP.

A segunda jiboia foi capturada em Pedro Toledo em 1969 e trazida já morta para o Instituto Butantan, enquanto o terceiro chegou até o Instituto vindo da Estação de Trem do município de Santos em 1978. Como seus dados de localidade são incertos é possível que tenha sido capturado no Vale do Ribeira e enviado ao Butantan por Santos.

Após cerca de 30 anos sem novos registros da espécie, que foi então considerada praticamente extinta, em 2003 pesquisadores do Instituto Butantan encontraram um novo espécime sem vida no município de Eldorado, próximo ao rio Ribeira do Iguape. Este espécime estava com um morador local e tinha somente a cabeça e a pele conservados em álcool. O exemplar era uma fêmea, o maior espécime conhecido da jiboia-do-Ribeira, com 1,5 m de comprimento.

O quinto registro da Jiboia-do- Ribeira não foi capturado e coletado para adicionar na coleção científica. Ele foi registrado em fotografias por um morador da Região do Vale do Ribeira em janeiro de 2009 na comunidade Guapiruvú, município de Sete Barras. O sexto registro também no Guapiruvú embora tenha sido morto, teve parte de sua pele e esqueletos recuperados e encontra-se na coleção científica do Museu de Zoologia da USP.

O novo espécime, encontrado no dia 21 de janeiro de 2017 por moradores da região, é um macho, de 1,70 metros de comprimento e 1,5 kg. O animal é de cor alaranjada, com escamas bem definidas e losangos pretos espalhados pelo corpo. Como toda jiboia, não é venenosa e mata suas presas por constrição (esmagamento).

“A cobra será estudada a fim de se descobrir mais informações sobre sua biologia e hábitos. Como nunca foi observada na natureza, não temos muitas informações sobre o seu comportamento”, afirma Lívia Corrêa, bióloga do Instituto Butantan. “Ela será solta em seu habitat natural e receberá um equipamento com radiotelemetria que possibilitará seu rastreamento na natureza e a transmissão de informações aos pesquisadores”, destaca a bióloga.

A redescoberta da jiboia-do-Ribeira foi possível graças à aproximação entre pesquisadores e moradores da comunidade rural do Guapiruvu, localizada no município de Sete Barras (Vale do Ribeira). Os biólogos Bruno Rocha e Daniela Gennari, do Museu de Zoologia da USP, e Lívia Corrêa, do Instituto Butantan, conduziram as ações. Além de palestras com os moradores, foram distribuídos cartazes e folhetos contendo fotos e informações sobre a jiboia-do-Ribeira. De acordo com os pesquisadores, sem essa parceria com a comunidade o projeto de encontrar este animal vivo não teria tido sucesso.

O trabalho tinha como objetivo encontrar um animal vivo com a ajuda da população local. As ações incluíram envolvimento da comunidade, desenvolvendo atividades educativas sobre a importância de conservar as serpentes e o ecossistema onde elas vivem. Desta forma, além de promover a apropriação da biodiversidade local pela comunidade, buscou-se reverter a atitude, comum nas áreas rurais, por falta de informação dos seus habitantes, de matar as serpentes encontradas.

Em anos anteriores, pesquisadores do Instituto Butantan já haviam identificado a necessidade de envolver a comunidade local na busca desta espécie rara e ameaçada. Com financiamento da Fapesp e da Rufford Foundation, e após da Universidade de Cornell, o Instituto Butantan desenvolveu um projeto de parceria com a comunidade, com ações educativas pensadas especialmente para as crianças e jovens da região, visando mostrar a importância ecológica das serpentes e desmistificar estes animais como “necessariamente ruins”.

“A confirmação de sua presença na região e o desconhecimento completo sobre a biologia de um animal tão raro, é um reforço importante da necessidade de conservação e interligação entre as áreas naturais remanescentes de Mata Atlântica do Vale do Ribeira”, afirma Lívia. “O projeto também mostrou que a parceria entre a ciência e a sociedade funciona e traz benefícios para a produção de conhecimento científico, para a comunidade local e também para a preservação de espécies ameaçadas de extinção”, reforça a bióloga.

Pesquisadores do Instituto Butantan, do Museu de Zoologia da USP e do Grupo de especialistas em Boideos e Pitonídeos da IUCN (International Union for Conservation of Nature) desenvolveram um projeto que propõe criar uma estratégia para a conservação da jiboia-do-Ribeira. O projeto conta também com o apoio governamental do RAN-ICMBio (Centro Nacional de pesquisa e conservação de Répteis e Anfíbios) e financiamento de The Mohamed Bin Zayed Species Conservation Fund e do Boa & Pythons Specialist Group.

A estratégia prevê obter informações da biologia da jiboia-do-Ribeira, pois o animal encontrado receberá um equipamento de radiotelemetria que vai acompanhá-lo no ambiente natural. A jiboia será solta e monitorada no mesmo local em que foi encontrada, com o auxílio dos moradores responsáveis pelo achado. Os rapazes da comunidade parceira receberão treinamento técnico e remuneração pelo trabalho desenvolvido com os pesquisadores.

Vinculado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, o Instituto Butantan é um dos principais produtores de imunobiológicos do Brasil, responsável por grande parte da produção nacional de soros antivenenos, antitoxinas bacterianas e viral, além de grande volume da produção nacional de vacinas utilizadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde. A instituição se destaca pelo desenvolvimento de estudos e pesquisas, básicas e aplicadas, relacionados direta ou indiretamente com a saúde pública nas áreas da Biologia, Biomedicina e Biotecnologia. O Butantan mantém importantes coleções zoológicas e também promove atividades culturais e de ensino, relacionadas à educação formal e não formal, com foco na difusão do conhecimento científico.