Edição 310Novembro 2020
Sexta, 27 De Novembro De 2020
Editorias

Publicado na Edição 309 Outubro 2020

Algo em comum

Luiz Carlos Ferraz

Tragédias que revelam faces sombrias da mesma deteriorada moeda, o Brasil exibiu ao cosmos – mais uma vez, nesta era de conexão instantânea interplanetária! – dois episódios emblemáticos da decadência moral a que está sendo submetido (numa vã tentativa de lavagem) o cérebro de seus cidadãos. No cume do poder político do país tornou-se ainda mais afamado o pernambucano Francisco de Assis Rodrigues, ex-governador de Roraima e atual senador da República por este estado – o que lhe garantia, também pela ligação efetiva (e afetiva, já que o próprio presidente Jair Bolsonaro o tratava, no passado recente, como parceiro de uma “quase união estável”), a condição de vice-líder do governo. Conhecido pela alcunha de Chico Rodrigues, ofereceu ao mundo espetáculo deprimente e escatológico durante operação da Polícia Federal de busca e apreensão em sua residência. O parlamentar, integrante da Comissão de Ética do Senado, tentou esconder, entre suas nádegas, soma considerável em notas de reais. A apreensão dos valores, notadamente sujos (no sentido físico e moral), somou-se a outras quantias, em reais e dólares, encontradas no local, mas que, a bem da verdade, não é possível confirmar origem ilícita ou relacionada a suspeita de sua participação em esquema de desvio na área da saúde. Em todo caso, o episódio lhe valeu o afastamento do cargo por 90 dias, devendo assumir o primeiro suplente, que é o próprio filho Pedro Arthur Rodrigues. Na mesma semana de outubro, no topo da paixão nacional, o mundo futebolístico agitou-se com a pretensa parceria entre o Santos Futebol Clube e o jogador Robson de Souza, que se revelou disposto a jogar “de graça”, por um período de três meses. Robinho queria apenas ajudar, ciente da crise financeira em que está mergulhado a agremiação que revelou Pelé. A solidariedade, contudo, durou pouco, até recordar-se que Robinho, desde novembro de 2017, é condenado em primeira instância, na Itália, a nove anos de prisão por violência sexual. Em meio ao repúdio generalizado, notadamente entre as mulheres e diante da pressão de patrocinadores, o glorioso alvinegro praiano voltou atrás. Instado a se defender, Robinho comparou-se ao presidente do país, coroando o contexto dantesco: “As pessoas estão me julgando e me atacando igual fazem com o Bolsonaro. Eu não entendo porque estão me atacando assim”.

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